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Ensaio sobre a hora do adeus

Dentro de um estádio de futebol, boa parte da beleza do espetáculo vem do público. Não era diferente naquela ocasião. No Engenhão abarrotado de gente, todos cantam, todos incentivam, todos enaltecem o grande responsável pela festa: um astro de renome internacional, acostumado desde sempre a apresentar seu talento diante de plateias gigantescas.

O astro, por sua vez, retribui com demonstrações generosas de seu talento. Tudo o que ele faz dentro daquela estádio é para os fãs, não para si próprio. Cada parte do repertório faz com que todos se levantem de seus assentos, e, ao se levantarem, mais os fãs têm certeza de que estão diante de um verdadeiro showman.

A festa é tão grande que ninguém parece se lembrar que aquela apresentação é uma das últimas da carreira do nosso protagonista. Ele ainda está numa forma incrível – melhor até do que a de seus companheiros, que, diga-se de passagem, estão longe de serem ruins –, mas a idade avançada o obriga a se aposentar em breve. Exatamente por isso, tanto o público quanto o astro tentam tirar o maior proveito possível daquele evento. Em breve, eles ficarão apenas na lembrança. Ou nos DVDs.

Ok, confesso: não estou falando da partida de despedida de algum jogador específico, mas do último show em solo brasileiro de um ilustre torcedor inglês do Everton chamado Paul McCartney (show, aliás, que eu e meu nobre amigo Guilherme Pedrosa estávamos combinando de ir desde 2008 e não passamos nem perto). Mas essa descrição também cabe perfeitamente à última partida de Petković, disputada nas mesmas condições poucas semanas depois. O sentimento de quem esteve lá era idêntico.

A questão é: nós, fãs, temos o hábito de cultivar a ilusão de que nossos ídolos estarão lá pra sempre. Poucos são os que se preparam para vê-los saindo de cena. E nenhum admite a hipótese de relegar a contribuição dele para a história de seu clube ou seleção ao esquecimento.

Sábado, foi o Pet. Semanas antes, de uma tacada só, o Manchester United viu Van der Sar, Gary Neville e Paul Scholes pendurarem as chuteiras. Ano retrasado, Maldini, no Milan. E, antes deles, gênios do quilate de Zidane, Figo, Nedved e Romário, entre inúmeros outros.

Aliás, enquanto finalizo estas linhas, começa a despedida de mais um: Ronaldo Fenômeno.

E nós que nos preparemos: daqui a pouco vai chegar a hora da aposentadoria de mitos como Rivaldo, Roberto Carlos, Marcos, Rogério Ceni, Alex, Ronaldinho Gaúcho, Henry, Beckham, Giggs, Raúl, Buffon...

E, claro, o Paul McCartney.
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Ensaio sobre um toque de mágica

Quando você é um aficionado por futebol, sempre vai existir aquele momento especial do qual você se lembrará eternamente. Pode ser um gol, uma jogada bonita, um episódio polêmico... enfim, algo que deixou marcas profundas, sejam elas positivas ou negativas.

O lance marcante da minha vida foi visto pela TV, numa quarta-feira à noite em que eu tinha acabado de voltar do curso de inglês. Embora tenha visto a partida ao vivo, até hoje fico admirado ao ver o tal lance. Aliás, antes de escrever este post, revi o vídeo relacionado lá embaixo mais vezes do que conseguiria contar, e, em todas as vezes, o máximo que pude fazer foi me surpreender com tamanha obra de arte.

Confesso que faz alguns meses desde que pensei em escrever sobre este gol, mas, por motivos de força maior, acabei adiando a publicação para a data de hoje. Por uma incrível e feliz coincidência, o gol aconteceu exatamente nesta data.

Foi num jogo entre São Paulo e Palmeiras, válido pelo torneio Rio-São Paulo. O Palmeiras venceu por 4x2, e, posso dizer, foi uma partidaça. Do lado tricolor, estavam Rogério Ceni, Maldonado, Luís Fabiano, França e um certo Kaká, recém-promovido das categorias de base. Pelo lado alviverde, monstros sagrados como Marcos, Alex, Arce...

Pois bem, vamos ao dia 20 de março de 2002. Aos 27 minutos do primeiro tempo, o Palmeiras já vencia o São Paulo por 2x0 e não dava a menor impressão de que ia tirar o pé do acelerador. A mágica começou em um ataque palmeirense pela direita. Numa rápida troca de passes, o legendário lateral alviverde Arce lança Magrão, que encontra Christian desmarcado na intermediária. Christian não hesita em tocar de primeira para um jogador que parte como um relâmpago em direção à área são-paulina, apesar de dois zagueiros tricolores estarem atentos ao lance.

A bola ainda nem havia chegado ao seu destino e o defensor Emerson já se preparava para interceptar o jogador que recebeu o passe, aguardando o momento exato para dar o bote – no caso, o armador Alex. Se o camisa 10 palestrino tentasse passar pela esquerda, Emerson o desarmaria com facilidade; se tentasse passar pela direita, havia outro zagueiro na sobra; se tentasse passar no meio dos dois, seria louco. Mas o número 10 costuma ser entregue a jogadores diferenciados, e, como tal, Alex conseguiu enxergar uma saída.

Por cima.

Bastou um único toque para que a bola encobrisse Emerson, num chapéu tão desconcertante que, quando o zagueiro se virou, Alex já estava cara a cara com Rogério Ceni. Rogério, que meses mais tarde seria o terceiro goleiro da seleção campeã do mundo, abandonou a meta desesperado. Já havia sofrido dois gols em menos de meia hora, e, se sofresse o terceiro, poderia eliminar qualquer possibilidade de o São Paulo reagir. Ele esperou a bola quicar, avançou sobre Alex, e... veio outro chapéu.

O toque sutil para o gol, sem deixar a bola cair, foi a assinatura perfeita para uma das maiores obras de arte que o Morumbi já viu, um verdadeiro patrimônio futebolístico da humanidade. Um gol de craque, um gol de placa, um gol de outdoor – como esse que a torcida palmeirense colocou na frente do CT do São Paulo no dia seguinte. Alex precisou de quatro segundos e três toques na bola para construir esse monumento no gramado.

E eu, na minha condição de espectador da partida pela TV, só me lembro de sentir uma mistura de fascínio e raiva quando assisti a este lance. Fascínio porque foi algo tão maravilhoso que, quando me dei conta, estava comemorando um gol de um time que não era o meu. E raiva porque o autor da tal maravilha esteve no meu time de verdade seis meses antes, sem demonstrar a metade da genialidade presente neste lance.

Pra minha sorte, pouco depois ele voltou ao Cruzeiro e me deu motivos de sobra – e põe sobra nisso – pra esquecer essa raiva.

Obrigado, Alex.

Não só por 2003, mas por me ter feito gostar ainda mais de futebol.

Com vocês, o golaço:

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